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by Tiago Pregueiro

As vacas que riem

Em Abril de 1921, León Bel registrou em França uma peculiar marca de queijos, “La Vache Qui Rit”, A Vaca Que Ri. No registro constava que a vaca tinha uma expressão hilariante. Bel não poderia imaginar o risonho futuro das vacas europeias.

Em Outubro de 2012, a Comissão Europeia propôs um novo fundo europeu para aliviar a miséria dos pobres mais pobres. O generosíssimo fundo destinava 2500 milhões de euros para distribuir por cerca de 4 milhões de europeus pobres, durante um período de 6 anos. É fazer as contas, cerca de 104 euros por ano, ou seja, 28 cêntimos por dia.

Volvidos 92 anos, quando um terço da humanidade vive com menos de 80 cêntimos de euro (1$) por dia, o plano europeu contra a pobreza, ou contra os pobres, atribui uma esmola de 28 cêntimos por pobre por dia.

Uma vaca europeia recebe, por dia, 4 euros de subvenção.

Outra Paz é possível

O mundo é um lugar explosivo. A pólvora negra, inventada na China, tinha sido durante 800 anos a única substância química explosiva conhecida, até à invenção da nitroglicerina por Ascanio Sobrero em 1846. Em 1866, Alfred Nobel, fabricante de armas, vendedor de morte, adicionou diatomite à altamente instável nitroglicerina e patenteou a mistura como dinamite. Nobel inventou também a gelignite, entre outras gelatinosas substâncias explosivas. Detinha 350 patentes e cerca de 90 fábricas de armamento aquando da sua morte, em 1896. Após tanto trabalhar para aperfeiçoar a arte de destruir e matar, decidiu em testamento que a sua fortuna deveria ser usada, entre outras coisas, para premiar “aqueles que mais fizeram pela fraternidade dos povos e pela abolição de exércitos e armas”. Assim, e desde 1901, a cada tantos anos, em Oslo, é entregue o tão prestigiado Nobel da Paz. Nos demais anos, entregam o igualmente prestigiado Nobel da Guerra, para premiar e reconhecer aqueles que mais contribuíram para a separação dos povos, a proliferação das armas, a invenção de guerras, entre outras malvadezas.

Hoje, 10 de Dezembro de 2012, dezenas de líderes europeus encontram-se em Oslo para a assistir à cerimónia de entrega do prémio. Este ano, o laureado é a União Europeia “pela sua contribuição durante seis décadas para o avanço da paz, reconciliação, democracia e direitos humanos na Europa” - deve ler-se “pela sua contribuição durante 60 anos para a guerra, desigualdade, pobreza e injustiça no resto do mundo”. Irónica coincidência que o prémio seja entregue na Noruega, país que se recusa a entrar na União que premeia, e que Oslo, pacífica cidade, se encontre em estado de alerta com ruas cortadas, polícias armados, espaço aéreo limitado a aviões militares, e controlos fronteiriços no aeroporto - tudo para celebrar a Paz.

Europa, velho continente, fortaleza onde todos vivemos pacificamente, enquanto os outros morrem na miséria, ou a tentar fugir dela. Não seria oportuno perguntar que paz é essa que unindo, desiguala e separa? Que paz é essa que elimina as fronteiras internas, mas vai criando muros à sua volta? Que paz é essa que nos dá o direito de exportar armas, e em troca roubar recursos para alimentar a nossa cultura do desperdício? Que paz é essa que inventa guerras, impondo miséria e ajuda humanitária? Que paz é essa que dá a uns a esperança da liberdade, roubando aos outros a liberdade à esperança? Hoje, 10 de Dezembro, é também, infeliz coincidência, o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Resta perguntar, quão humanos são os direitos dos que vivem do lado de fora da fortaleza?

No futuro: haverá Paz no mundo, ou haverá Europa.

O contador de estórias

Santiago, inverno de 2007, noites frias, almas acalentadas com licor café. Numa dessas noites conhecemos o nosso amigo André Chamadoira, companheiro de armas e palavras. André, contador de estórias, contou-nos uma outra história, a dos nossos países, que no fundo são um só, o mesmo. Com ele aprendemos a ouvir as palavras, e o que elas nos contam do seu passado, o nosso passado. E largas foram as noites vindouras em que acabávamos discutindo e aprendendo. 

Quarta-feira, noite de foliada, festa da folia. Atraídos pelo som da gaita de foles, encontrávamo-nos naquela pequena guarita, o Calpe, onde o vinho se servia em malgas e se bebia em danças! Seguíamos caminho, com paragem obrigatória n’O Cabalo Branco, para matar a fome e reavivar memórias e histórias. Saudades. Próxima paragem: O Avante. Quartel-general da revolução, que de noite se erguia, clandestino, para dar voz aos que não têm voz, e lembrar-nos que o povo unido pode ser reprimido mas jamais será vencido. Acabávamos no Tarasca, humilde tasca para humildes guerreiros, e ficávamos até fechar. Nunca a música de Zeca Afonso teve tanto significado, como naquelas noites. Santiago, terra da fraternidade, onde o povo é quem mais ordena e resiste, foi a primeira a escutar aqueles versos em Maio de ‘72, no Obradoiro. E nos dias que correm é no Tarasca que todas as noites terminam quando as luzes se acendem e se acendem os corações ao som da Grândola Vila Morena.

Passaram cinco anos, seguimos caminhos diferentes. Voltamos a encontrar-nos poucas vezes, em Guimarães, Santiago e Madrid, mas muito mais vezes nos encontramos, todos os dias‚ nas palavras, nas ideias e nos pensamentos, e pese a distância, seguimos partilhando risos ante esta cómica realidade.

“Some people are so poor, all they have is money.”

—   Unknown

"La rebeldía es la vida. la sumisión es la muerte" – Ricardo Flores Magón

Mineiros

Entretanto na África do Sul a polícia matou 34 mineiros. Mineiros, sim. Que não é exactamente o mesmo que pessoas. Também não é o mesmo que matar 34 cães ou touros, porque matar animais é desumano, dizem os outros. É que os mineiros, ao contrário dos leões, não são uma espécie protegida, apesar de estarem em vias de extinção. Mineiros, essa espécie de homenidio que vive nas profundezas do subsolo, e dedica a maior parte da sua curta vida a escavar, qual toupeira, a sua própria cova. Em média vivem na esperança os primeiros 15 anos, e depois começam a morrer, lentamente, grão a grão. A esperança de morte é de 40 e poucos anos, mas já foram avistados espécimes que resistem até cerca de 60 anos em cativeiro - autênticos crocodilos do subsolo. Morrem pela acumulação de riquezas nos pulmões - a Silicosis. Mineiros, que são como gado, numa “economia que os guia para o trabalho, que é um matadouro”.

Mineiros, esses que da terra extraem pequenas pedras e poeiras sem valor, que depois dão a volta ao mundo para tornar-se preciosas. Também as imagens da matança deram a volta ao mundo, dizem. As imagens aterradoras costumam dizer muito, mas estas falaram muito pouco. Afinal de contas são só mineiros, num país civilizado, e por isso trocam-se cuidadosamente as palavras fuzilado por abatido e matança por incidente. Bem, pelo menos não usaram armas químicas no abate, porque isso seria, dizem eles, um incidente inaceitável.

Após o incidente o Presidente apelou à calma, garantindo que tudo será feito para esclarecer o que aconteceu. Mas… restam dúvidas? Adianto aqui um resumo da investigação ainda a decorrer: 16 de Agosto de 2012, no país da Boa Esperança, milhares de mineiros - essa espécie de infra-humanos que vive no subsolo, que não são terroristas nem subversivos mas sub-terráqueos e sob-explorados - descontentes com as condições de trabalho, decidiram sair das catacumbas e exigir uma migalha para aliviar a miséria. Ora os Mercados - essa espécie sob-humana, cuja alimentação é rica em platina, ouro, petróleo, sangue, suor e lágrimas, entre outras miudezas - descontentes com o descontentamento dos infelizes, rapidamente reagiram e, com a sua mão invisível, ordenaram a actuação inequívoca das autoridades competentes. Os corpos de segurança vieram para executar a sentença: assegurar que os corpos dos mineiros voltavam para debaixo da terra. Vivos ou não-vivos. A operação de abate foi um sucesso, a mensagem ficou clara, os mineiros deveriam voltar a respirar platina no inferno, para que os mercados voltassem a respirar normalidade.

Beautiful! - “Dudes sitting around just talking corn.”

(Source: fieldnotesbrand.com)

“half the time I sleep, the other half I dream”

—   Kierkegaard

“I don’t know if I can change the World, yet… cause I don’t know much about it!” - Sarah Kay at TED

Noir Désir - Le Vent Nous Portera